segunda-feira, 10 de setembro de 2007

tadinho

2006 foi quando pela primeira vez eu vi o mundo desabar na minha frente de uma forma que eu nunca poderia ter previsto. de fato que eu sempre tive um lado barango de tratar a vida como tragedia. qualquer pequeno problema era um dramalhao só, uma tristeza infundada, uma lamuria inconsistente que só queria remeter aos grandes herois. era como se eu quisesse ter uma historia tragica pra justificar toda aquela predisposiçao para a cara fechada, para a sonolencia dos minutos de angustia que tanto me atraiam. era meu sonho ser martir. ser o asiatico na frente do tanque da paz celestial, o grande revolucionario da motorcicleta. mas é um tanto verdade que nao se deve ensaiar para ser um desses aí. tanto pedi que tive uma mini tragedia de nelson rodrigues. encomendei tanto a justificativa pra um semblante sofrido que quando ele finalmente chegou na minha caixa de correio eu nao queria abrir de jeito nenhum. me ví um frouxo. estava alí a caixinha com a justificativa pra toda minha pose de coitado adotada durante toda a vida e eu nao queria segurar o pacote. muito menos abrir. nesse momento eu enxerguei a luz do canhao seguidor e a cortina do teatrinho pastelao se abrir pra minha cena de monologo. um monologo que eu nao queria de verdade. queria colo, queria ser confortado e tratado como coitadinho sabendo que nada tinha acontecido. só o dengo que eu queria, aquele que eu sempre quis quando caia e machucava o joelho que nem doia. Mas mesmo assim eu mancava e chorava lagrimas de lagartixa na eminencia inexistente de perder a perna. todos os amores eram como romances épicos, sem final feliz. tudo um derrame de sangue sem fim, uma jornada de sofrer e a coroa da angustia como aquela de espinhos do jesus. talvez quisesse ser jesus. tambem quis ser michael jackson, tambem quis ser o batman. todos esses caras tinham o passado traumatico e o futuro glorioso que eu sempre achei ser uma referencia para as grandes pessoas do mundo. uma vida conflitante que era vencida pelos valores ou virtudes inabalaveis resultando na figura da vitoria. todos tinham sido tadinhos no passado. eu, que sempre quis ser tadinho, nao gostei do gosto quando pus na boca. quis devolver mas nao tinha jeito. escovar os dentes nao adiantava e eu fiquei ali sentindo o gosto um tempao parado. ai veio a ideia de me fazer um martir mais uma vez. Ia morrer. vendo agora, nao houve momento verdadeiro em que eu quis me disfazer de mim mesmo, mas cheguei a pensar por vezes por ser uma maneira de ser tragico com justificativa. minha cabeça nao deixava. era muito cinico, racional e desprendido para chegar a tal ponto. percebi a falta de sentido que ia fazer eu me privar da vida como num rompante de tristeza aguda. e o grande legado do heroi? ia deixar um par de amigos para traz, uma porçao de parafusos enferrujados guardados em caixinhas de diferentes tamanhos e só. nao fazia sentido. "ah! ce ficou sabendo? aquele menino morreu!" era o maximo da extensao da minha tragica renuncia a vida. patetico. era patetico como é patetico o pensamento todo. a sombra da enorme mediocridade dos meus mais profundos pensamentos me fez cair de vergonha. uma vergonha furiosa que só eu podia ver. guardei municao para seguir em frente. a unica forma de nao passar novamente por aquela situaçao tao patetica era ser alguma coisa de que me orgulhar antes de poder bancar o martir injustiçado. foi aí que eu virei um adulto no espelho. sei lá o que o mundo pensa mas pra mim eu era o mais adulto dos homens. tinha passado minha guerra. minhas cicatrizes eram aquelas que eu sentia na hora de nao dormir tentando dormir. o trauma finalmente existiu. ele esta aqui. as vezes dominante, as vezes incubado. eu o tenho. sou meu proprio martir. ninguem precisa saber. ninguem vai notar. a unica coisa que vao notar é meu olhar de coitadinho por aí, sem saber o motivo.

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